sábado, 30 de junho de 2012

refletindo a semana

Refletindo sobre esta semana, descobrir que ela foi incrível. Acho que foi umas das semanas mais bem sucedidas pra mim. Segunda começou quando acordado, na madrugada fria de São Paulo, com livros de cálculos sobre a mesa, copo d'água, lista de exercícios. Terça, organização dos diários, para a reunião de quinta-feira no colégio, e divulgação do orgulho LGBT pela rede social. Quarta, organizando o cronograma, e o orçamento com o Bandieri, para o projeto do grupo enchendo laje & soltando pipa. Quinta reunião, dia do orgulho gay, fui pra escola com uma gravata colorida. Nas primeiras horas de sexta-feira, assistir um clássico de Fellini, "La Nave Va", incrível o filme. Só na sexta, que melou, combinado com os amigos para assistir "corintians, meu amor" da Cia Brava, esqueço a merda do bilhete único. Para não pagar mais condução, desviei o meu caminho, e a noite de sexta acaba com "Milk". Ah, antes disso, ia me esquecendo, também havia acabado de ler um livro muito bom inclusive, "O sonho do Celta" de Mario Vargas Llosa (recomendado também!). É isso, e hoje, reunião do Projeto Raiz. E amanhã, 1º de Julho, lembro agora da música que a Cássia Eller canta:

"Eu vejo que aprendi
O quanto te ensinei
E nos teus braços que ele vai saber
Não há por que voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez"

...É isso, daqui a pouco saio, e minha história continua, amanhã teatro, e nada de atraso, as 8 horas montar o cenário, e ensaiar!

PS: e claro, não poderia esquecer, mais um livro de Marcelino Freire desvirginado hoje! "Angu de Sangue"  

...E amanhã, 1° de Julho, letra de Renato Russo cantada por Cássia Eller, do álbum MTV Acústico


segunda-feira, 21 de maio de 2012

um papo religioso


Hei, já disse! Não acredito em d’EUs, não tem essa de então acreditar na “coisa ruim” sei que uma depende da outra (se d’EUs existe, o Diabo existe, não é isso?). Não acredito em d’EUs e pronto. Não entendeu? É fácil explicar, ou melhor, é mais fácil entender o meu ponto de vista do que o seu. Por mais que tenha fé, uma coisa que já perdi já faz um tempão. Eu frequentei a igreja, olhava para o Padre, para os coroinhas, para as pessoas, adorava orar naquele tempo. Imaginava eu e o Padre, no confessório, sozinho um com outro, eu tirando a sua batina. É isso, eu fiz catequese, fiz a primeira comunhão, fui batizado tardiamente. Mas minha formação foi a tua religião. Fui cristão, como sabes, fui um cristão que antes de refletir os dogmas dessa religião, apenas aceitava sem nenhum questionamento. Comecei estudar naquele tempo, conheci um novo d’EUs, chamava-se Darwin, Charles Darwin. Foi ele que fez e me conduziu a questionar muitos dos valores que seguia. E confesso que depois dele, as coisas foram desmoronando cada vez mais para minha crença. Não via mais o barro como a matéria prima da origem do homem, não havia mais cabimento em acreditar nisso.
É isso, retorno a dizer, não acredito em d’EUs! Ainda não entende? Quer que eu fale mais, e dê mais provas? Hein, um dia eu irei me arrepender? Quando estiver passando por apuros, eu vou rogar por d’EUs? É isso que você tá falando. É esse o medo que você tem? De receber a resposta majestosa do ser divino, não mais que abstrato? Você vai rezar por mim? Não precisa! Depois que conheci Darwin, também conheci outro d’EUs, Sigmund, Freud, Sigmund Freud, é isso. Agora acredito em dois deuses, já não sou mais monoteísta. Freud, tão delicado, me conduziu para uma melhor compreensão da mente humana. Depois veio Nietzsche, Saramago. E já me tornará num pagão.
Hoje já não sou pagão, só respeito e vejo que a mentalidade humana é sem limites. Você acredita seriamente que tudo que existe deve haver algum sentido? Que as formas da natureza devem ser totalmente simétricas, que o nosso universo é regido por um soberano? Já se questionou se um cachorro, um cavalo, ou um elefante já pensou nisso tudo? Eles apenas vivem e nada mais, só isso. Sim, também acredito na gravidade, como Einsteen disse, a gravidade é uma propriedade do espaço-tempo, conforme maior a massa, maior a curvatura. É tão lógico isso. Mas mesmo assim você continua sem me compreender? Bom, outra hora conversamos. (Claude Baudelaire)

 Salvador Dali

terça-feira, 15 de maio de 2012

VIII - Alberto Caeiro

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?




sexta-feira, 11 de maio de 2012

Poema em Linha Reta - Álvaro de Campos

Keith Vaughan

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Minha Flor - Marcelino Freire


Filho, sua mãe é homossexual.
Está amando outra mulher e sendo amada.
Filho, entenda. Como dizer isso? Não passa de hoje, quando chegar em casa. São três horas da madrugada. Ele me esperando, acordado, preocupado. Filho, é isso. O mundo anda tão evoluído, moderno. Flor está comigo, Passeia nas minhas coxas. Tomo whisky, fumo fumaça. Filho, não tenho culpa. Sua mãe também é gente, ser humano. Moda liberada, ano 2000. Filho, eu te amo.
                Seu pai foi o homem que mais amei. Quando o vi pela primeira vez, aconteceu. Aconteceu já na primeira vez uma vida toda. Insisti, fui atrás. Abanei meu charme, me humilhei pra cachorra. Até que ele cedeu, filho. Fui a mulher mais feliz do bairro. Fui feliz, uma alma encantada no universo. Não reclamo. Seu pai foi ótimo, me deu tudo. Seu pai, um homem sério. Mas ele morreu. Morreu, filho, faz cinco anos. Mas não desapareceu. Seu pai ainda é meu.
                Chego hoje e digo, de hoje não fujo. Flor me deixa no prédio, subo. Flor me beija, Flor me aquece. Conto tudo. Como foi, por que foi. Por que essa angustia. Não desejo morrer assim, feliz só pra mim, é difícil.
                Filho, se você estivesse aqui do meu lado. Como seu pai, agora está, acredito. flor parece com seu pai. Flor diz coisas muito iguais. Gosta de Bach, Mozart, gosta de charutos. Filho, ela gosta de charutos. Bebe o mesmo vinho.
                Querido, não precisa chamar ninguém de madrasta. Padrasto então, não tem isso. O pessoal pergunta: quem é o homem? Quem é a mulher? Absurdo. Eu e seu pai fazíamos coisas que até a vida duvida. Filho, hoje eu quero chorar, desabafar, eu quero me libertar. Preciso.
                Vamos embora. Flor. E flor quis ficar mais um pouco. Apertando a minha mão. Dizendo para eu não me precipitar. Preocupada que ela está. Flor tem a sua idade.
                Não se assuste, filho. Ela parece mais velha. Ela parece ter a idade do seu pai, acredite. Tem um coração antigo, no bom sentido. Coração maduro e leve. Bem leve.
                Beijo o batom de Flor, arranco o batom fora, a pétala. Vamos embora.
                Fomos.
                Sei que não é de agora que você acha estranho meu novo comportamento. Felicidade e festa. A gente fica incorporando uma criança.
                A gente saltita. Você me pegou várias vezes ao telefone, vermelha. Sussurrando pelos cantos, vermelha. Demorando no chuveiro, saindo para viajar. Tomando bronze no Guarujá. Indo ao cinema, dançar. Tendo cada vez menos saudades do seu pai. É mentira. Quando estou com Flor seu pai participa. E isso não tem nada a ver, repito, com quem dorme em cima ou dorme embaixo. Filho, o carro chegou. Tenho a impressão de que o porteiro desconfiou. O porteiro olha pra mim, sorri. Sabe sorriso vigilante? Sabe sorriso conquistador? Sabe sorriso no escuro? Cambaleante, entro no elevador. Puxo uma respiração. Olho minha vida no espelho. Hoje não tenho medo.
                Entro devagar. Não quero assustar passarinhos. Lembro que quando namorava seu pai, a gente não corria atrás de pombos. A gente chegava aos poucos, irmanados. A gente trazia pão e trazia nossas mãos. Felizes. Seu pai, filho, me deu tanto amor que foi esse amor que pôs Flor no meu caminho. Só quem ama assim é que entende. E mais que entende, sente. Você me ama, filho. Nada entre a gente teve fim. Filho, de novo eu digo: te amos demais. Por isso quero repartir, compartilhar. Olhar o sol já se abrindo no seu quarto.
                Na cama, já. Não me esperou chegar. Desligo a luz ligada, recolho a revista do seu colo. Filho querido, esse frio. Não tem frio. Puxo o lençol até seu peito. Deixa, filho, pra lá.
                A mesma felicidade é amanhã, assim que o mundo acordar.


domingo, 22 de abril de 2012

Coração - Marcelino Freire

Bicha devia nascer sem coração. É, devia nascer. Oca. É, feito uma porta. Ai, ai. Não sei se quero chá ou café. Não sei. Meus nervos à flor de algodão. Acendo um cigarro e vou assistir televisão. Televisão. O especial de Roberto Carlos todo ano. Ai, que amolação! Esse coração de merda. Bicha devia nascer vazia. Dentro do peito, um peru da Sadia. É, devia.

Célio conheceu Beto na estação de trem, em setembro. Moreno bonito. Célio acariciou o membro de Beto no aperto vespertino, no balanço ferroviário. Beto gozou na mão do viado. Encabulado, mascou seu chiclete, desceu e nem olhou para trás, para Célio. Célio feliz por um certo tempo. A gosma entre os dedos. A porra a gente esconde no ferro, debaixo do banco.

Depois encontrei com ele de novo. Oi, oi. Perguntou se eu tinha um cigarro, se morava na XV de novembro. Se eu trabalhava, de quê trabalhava, essas coisas. Se ele podia me acompanhar até em casa. E você? Deixei, deixei. Eu não tenho medo. Se for ladrão, não tem o que levar. E ele parecia, sei lá, um menino bom. Bafão, mona. Abra a janela que eu estou ficando tonta.

Era feriado de 7 de setembro. O povo descendo cariado, passando catracas, barracas. Célio se sentindo…

A dona do puto.

… na companhia de Beto, que vestia camiseta branca, calça bege, meio jegue, de peito cabeludo.

- Chegamos.

Havia cacharolas cinzas no fogão, pratos, ossos e esponja. No quartinho, colchas coloridas.

Conquista de território.

Aí o bofe tomou um ki-suco de morango, comeu um omelete, conversou pouco e nada. Não rolou nada aquele dia, acredita? Ele travou, não sei. Não-me-toque, eu não toquei. E assim a gente ficou. Ele saiu chupando um chiclete de uva-maça-verde. Eu amarelei.

Depois disso, quem disse que Célio se concentrou nos seus desenhos? Fazia moda verão, inverno, jaquetas e turbantes. E pensava na boca do Beto, no desodorante. No dia em que ele gozasse no seu travesseiro de cetim. Ai, ai de mim. Procurou o moreno em todos os vagões. Não esqueceu nenhum.

A pior coisa, amiga, é uma trepada quando fica engasgada. Vira uma lembrança agoniada. Uh!

Encontrou Beto uma semana depois. Na mesma hora em que estava masturbando outro, desiludido e oco. Um loiro que nem chegava aos pés do moreno misterioso. Epa! Correu e disse alguma coisa: algo como “Omelete recheado”. Vamos de novo?

Foram e chegaram.

No quartinho, colchas coloridas. Conquista de território, nunca se sabe. O mundo é cheio de voltas desconfortáveis. Mas de hoje não passa.

Ai o bofe tomou ki-suco e comeu omelete. Tinha bolo Souza Leão. Foi quando ele perguntou se podia dormir comigo aquela noite. Claro que sim, se não! O rádio-relógio tocando Maria Bethânia, as canções que você fez para mim. Eu não tive dúvida. Fui tirando a roupa do bofe. Uau! Menina! Bicha devia nascer sem coração, tô te falando.

Quando acordou, depois de tanto prazer, cadê o amor? O menino saiu, na madrugada. Evaporou-se. Como? Célio viu se tudo na casa estava em ordem. As caçarolas intactas, os ossos continuavam à mostra. Ora, que menino mais capeta! Só sobrou o chiclete, acredita?

Ai, ai. Mesmo assim, cheio de formiga.

Cheguei atrasado na confecção, na terça. Não quis almoço, não fiz marmita. Lá fui eu de novo atrás do bofe. Como uma anta perdida. Não tem coisa pior do que o abandono. Depois de uma trepada daquela, tudo parecia ser eterno. Aí é que a gente se engana.

Nada, mona.

No lugar do coração, bicha devia ter uma bomba. A minha vontade era ter uma granada, para estourar no trem. Para fazer uma desgraça, juro. Só assim, Deus vai olhar para mim. Vai me trazer de volta aquele anjo. Sim, porque era um anjo. Não me roubou. Não me bateu. Sabe o que ele me falou? Que queria ser corredor de Fórmula-1. Vai ver foi isso. Zummmmm.

Até hoje, nem sombra. Célio não quis saber de outro cara. Mesmo que alguns só faltassem esfregar o pau na sua…

Você me respeite.

Tem um, lá no Brás, que vive convidando o Célio para ir ao parque. Para comer tapioca com creme de leite. Naquele Natal, até ganhou do cara um peru da Sadia, um vinho…

Não agüentei ficar em casa, sozinho, e vim tomar um café com você. Essa bosta de tristeza que bate no coração da gente, de repente. Que desmantelo! Bem que Roberto Carlos podia cortar esse cabelo. E eu, nascer sem coração, repetiu. É, sem coração.

Para não ter que ouvir essa canção.


 Keith Vaughan

Nos Poços - Caio Fernando Abreu

Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.
 do livro "O Ovo Apunhalado" Pg. 19

Sebastian Moreno - Tierra de desesperacion