quinta-feira, 29 de março de 2012

"quando soltaram os cachorros loucos"




Se aventurar nas páginas e páginas daquele escritor, que de certa forma te toca, é a melhor sensação. Como está sendo bom ler nos retornos da faculdade para casa, Caio F. Abreu. Como foi bom, e maravilhoso hoje ler algo de humor vindo das palavras deste grande, mesmo sabendo que, o que virá na sequência, pode inverter o estado de espirito. "Triângulos das Águas", livro bastante propício para ler em março. "soltaram os cachorros loucos". E como se eu já soubesse, ou prevesse, as referências, os gostos, as simpatias, e as experiências, vêem de total harmonia com as minhas. A cada palavra dada, uma sensação de espirito surge. A cada gesto descrito, um sensação de leveza ou peso atrai. E a cada ausência, se repelem. Como se fossem a mesma analogia do espelho, refletem as suas sensações, e quando pára para pensar, essas sensações não são suas, mas do próprio personagem, que saem de um plano metafísico para projetarem em outros, e pensando assim, veio algumas gravuras de Escher, quando há uma mistura dos planos euclidianos, ou melhor, dos espaços euclidianos, a ponto de confudirem-se com a nossa mente, e que as tranformam em grandes enigmas.

segunda-feira, 19 de março de 2012

...depois


Depois da tarde cheia,
Há um momento de vazio.
Uma sensação boa e ruim,
Boa pela tarde ter sido cheia,
E ruim pelo dia seguinte ter esvaziado.
Medo por não haver mais as tardes cheias.
Cheias de encanto, de paixão, de abraços apertados.
Tarde que proporcionou aventuras.
Leituras, músicas, beijos, filmes, exposições.
Tarde que unia dois homens,
Que afagava seus sentimentos.
Unia um corpo no outro corpo.
Equilibrava as temperaturas,
Daquele que veio do frio de Amsterdã,
Ao encontro deste, do calor de São Paulo.
                                   (São Paulo (SP), 19 de março de 2012)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Céu de Galileu

    Ver ontem a Lua nascer do "Morro da Coruja" (instituto de física) não tem preço! Ela, toda cheia, laranjinha por conta da poluição atmosférica, e também por conta do índice de refração dos raios vermelhos de menor desvio (os amigos físicos, e astronomos me corrijam, se estiver errado), estava lá, bonita, elegante e atraente. Como não só precisava dela, no outro horizonte, poente, Vênus e mais acima Júpiter (sem dúvidas, Júpiter apareceu quase no mesmo instante que Afrodite!), estavam fazendo a festa celeste. No entardecer, avermelhada, Marte dominava o Céu, sobre Leão. Sem mais...
    Se fosse um Astrologo, diria que os leoninos estão nos seus melhores dias. Tendo Marte sobre a constelação de Leão, e sendo representado por Ares (senhor da guerra) ...eles, digo, os leoninos, irão dominar por esses dias. Mas como não sou astrologo, e sim, estudante que deseja se especializar em astronomia (NÃO ASTROLOGIA!!!) digo que o fato de Marte está sobre leão, é somente uma questão de movimentação planetária. E o fato da constelação de leão está amostra, diria que somente está nos dizendo que está chegando o outono, mas ainda assim terá mais de um mês pela frente. Só quando Leão, as 21h aparece bem no alto do Céu, diremos que começou o outono.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ó Capitão! Meu Capitão! (Ó Captain! My Captain!) Walt Whitman

Ó Capitão! Meu Capitão! (Ó Captain! My Captain!)
Walt Whitman

Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prêmio que
buscávamos está ganho,
O porto está próximo, ouço os sinos, toda a gente está
exultante,
Enquanto segue com os olhos a firme quilha, o ameaçador e
temerário navio;
Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.

Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas –
para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas, agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.

O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objetivo ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde jaz o meu capitão,
Tombado, frio e morto"

(Tradução de Maria de Lurdes Guimarães)

(nota: ao Jair, grande professor de história!)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Morte dos Girassóis

Gostaria de escrever um poema;
Um poema que fosse repleto de poesia;
Poderia começar a dizer que vivo em moema;
E para rimar viveria em maresia.

Mas assim a rima fica fácil;
É que na verdade moro no grajaú;
Como preciso ser ágil;
Diria que guardo um baú.

Nele encontra todo o mistério;
Minha vida,
Meus amigos,
Minhas músicas,
E meus familiares.

Esse baú poderia ser como a caixa de pandora;
Quando abro saem todas as lembranças;
Não os males do mundo,
Terremotos, erupções e chuvas,
Mas saudades, amores e girassóis.

Gostaria de fazer uma poesia que falasse dos girassóis
Das margaridas,
Das orquídeas,
Das rosas.

E isso só quando penso em girassóis;
Caso contrário faria uma poesia sobre a morte,
A violência,
O preconceito,
E a intolerância.

Muitos diriam que não seria uma poesia;
Se falasse da violência que gera o preconceito;
Que cria a intolerância;
E que leva até a morte.

Na semana passada, por exemplo, João Paulo foi morto a vinte e três facadas,
Dois tiros na cabeça,
E os órgãos arrancados;
Encontrado num terreno baldio.

No último pôr do Sol deslumbrante, João Paulo encontrado no terreno de girassóis,
Manchados de pigmentos vermelhos,
Perfurados por várias regiões do corpo,
Foi levado ao ML.

Joao Paulo morreu repleto de poesia,
Suas imagens foram divulgadas no D’Atena,
Depoimentos dos familiares que reconheceram seu corpo foram arquivados,
Trabalhador, pai de família, deixou uma criança de sete meses e uma de quatro anos.

Os girassóis nunca mais nasceram,
O Sol não amanheceu,
É tempo de lutos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Minha opção: um poema decifrável

d’EUs, é a racionalIDADE do antropo, que é HOMOsapiens.
SEXUALidade, VERaCIDADE que DORme nesta maDROGAda TERra da gARoa;
Faça-te teu conSOLO como mil HOMENagens;
SEM ter e senTIr, oh CORoa;

reVISITAda, São Paulo de OUTROra de hoje,
Que VEM de mim para o outro;
SuJEITO que não me quer bem, oh seu caboje;
Saio de ti e desENCONTRO;

Vejo muitas pELES e engrenagens;
E sei que, quANDO a ti, me magoa;
Navegarei em busca de novas paisagens;
Para conSEGUIR liberdade como um pássaro que voa.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Para Oswald de Andrade

Venho bebendo os mortos já faz um tempinho, não os que se foram, mas os que permanecem em suas obras, relatos e artigos. Em homenagem a um morto que ontem bebi, e hoje completaria 122 anos, cujos fragmentos do "Manifesto Antropófago" comi. Devorarei-o agora seu corpo. Viva Oswald de Andrade. É estranho dedicar uma carta a um cadaver, sabendo que nunca lerá, mas dedico propriamente a carta, as diversas partes do seu corpo, das suas idéias que prevaleceram e foram fragmentadas em cada um de nós. Então, para os apreciadores deste gênio do modernismo e grande pesquisador, dedico a carta a vocês. Digo que irei devorá-lo, pois não sou conhecedor de sua atmosfera literária. Sou um leigo em seu universo. O pouco que me aventurei já me identifiquei, não só eu, mas em todas as influências culturais que existem aqui no Brasil. Seu manifesto é um trabalho que irá dialogar muito com a cultura brasileira, isto é, um pouco das raizes africanas, européias e até mesmo a cultura dos "indigenas". Tive a honra de conhecer mais afundo seu trabalho, pelo grande dramaturgo "Zé Celso" em seu espetáculo: macumba antropófaga. Zé Celso bebe de Oswald, que bebe da vanguarda européia. E eu que continuarei a beber dele e tantos outros. E espero que bebam de mim. E é assm que se faz um ritual antropofagico, o canibalismo de devorar a cultura do outro e ser devorado. Hoje irei devorar meus amigos, amanhã será eles, e é assim que se constrói o conhecimento. E como diria Arnaldo Antunes: "que preto, que branco, que índio o quê?" "aqui somos mestiços mulatos, cafuzos, pardos, mamelucos, sararás, crilouros, guaranisseis e judárabes". Também bebo e como muito de Arnaldo Antunes. E para dar sentido a carta escrita para um cadaver, juntamos toda sua produção literária e toda gente que está influenciada pelo seu repertório, e em união seremos Oswald de Andrade.